segunda-feira, 16 de março de 2009

SILVIO CALDAS E TROVADORES URBANOS - MISTURA FINA (RJ) - SHOW











Imagine você ser fã de rock e o convidarem para fazer parte da banda do Elvis Presley. Ou que você adora jazz e o convidam para tocar com o Charlie Parker. Pô, mas o Elvis morreu ! E o Charlie Parker também ! Pois é. Acontece que éramos fãs de música popular brasileira e tivemos a oportunidade de tocar com ... Silvio Caldas. Um dos mais importantes artistas da história da cultura popular brasileira. Na época com oitenta e poucos anos. Vivo, vivíssimo, e ainda cantando.

(Sessão didática: Silvio Caldas, ao lado de Orlando Silva e Francisco Alves, representou a tríade de grandes cantores populares do Brasil, na primeira metade do século passado. Elegante, vaidoso, brilhante, foi contemporâneo da chamada era de ouro da música brasileira, a partir dos anos 30. Eternizou canções como "Carinhoso", "Chão de estrelas" (de sua autoria, em parceria com Orestes Barbosa), "Da cor do pecado", "Três lágrimas", "Maria", "No rancho fundo" e muitas outras. Com o advento da bossa nova, no final da década de 50, que tornou "velhas" aquelas vozes possantes e cheias de vibrato de então, Silvio entrou numa fase descendente. Ficaram célebres suas várias "despedidas", que eram substituídas por voltas e novos discos e temporadas.)

Com muito orgulho, entramos na vida de Silvio Caldas. Começou quando o Sesc Pompéia promoveu o projeto "Via paulista" (criado por Eduardo Gudin e Costa Netto), que reunia, a cada edição, dois artistas diferentes do mesmo universo. Alguém se lembrou, então, naquele 1991, de reunir o velho seresteiro Silvio Caldas com aqueles garotos (na época poderíamos ser considerados algo assim...) que tinham aparecido no Jô Soares, falando em serenatas e cantando músicas antigas. Nos convidaram, e nós topamos correndo, por qualquer cachê que fosse. Convidaram o Silvio, ele confirmou... depois desconfirmou, querendo mais dinheiro, e talvez duvidando da competência daquele novo grupo que ousava dividir o palco com ele.

Não nos demos por vencidos : fomos a Atibaia, onde morava, e, após marchas e contramarchas, o localizamos no barbeiro. Mal humorado, não nos deu chance sequer de falarmos, já ralhando que não iria fazer show nenhum, etc. e tal. Foi então que, numa brecha da discussão, engatamos um "Eu sonhei que tu estavas tão linda". A arrogância e a inflexibilidade daquele velho artista foi perdendo força, e quando vimos ele estava aos prantos, nos abraçando, emocionado, com aqueles "jovens" (e éramos...) cantando aquelas músicas do seu tempo...

Foi então que viramos parceiros. Minha irmã Maida virou sua empresária. E fizemos vários outros shows juntos, alguns memoráveis, como no 150 Night Club, do Maksoud Plaza. Obviamente, nós iríamos abrir a noite para ele, o grande artista, de volta ao palco. No dia da estréia, ele chegou ao nosso ensaio e comunicou : vocês vão encerrar. Eu abro a noite. E foi o que ocorreu, durante toda a temporada : o grande Silvio Caldas abria a noite. Os Trovadores Urbanos encerravam.

E o show mais memorável foi no Mistura Fina, na Lagoa, no Rio de Janeiro, em junho de 1996. Era a volta do "Caboclinho querido" à sua cidade natal, onde, durante o período em que lá foi a capital da República, viveu seus anos de ouro. Casa abarratada de gente. Quando subimos ao palco, divisei, na platéia, dentre outros, Mário Lago, Braguinha, João Nogueira, Beth Carvalho. Brinco até hoje que quase saímos do palco para pedir autógrafos nas mesas...

A última gravação da voz do velho seresteiro em disco, para nossa honra, foi em nosso CD "Serenata", de 1995. A música, "Beco sem saída", uma das suas últimas composições, quase o seu canto do cisne. Belíssimo, por sinal : "Agora sem você o que é que eu faço / onde eu jogo o meu cansaço quando eu quero descansar / o que é que eu vou fazer da minha vida / nesse beco sem saída que você quer me deixar / já fiz meu travesseiro do seu braço / e agora o que é que faço / pra me desacostumar / você não vai ficar fazendo graça / a uva também vira passa / você vai se machucar". No dia da gravação, ele estava com um sério problema familiar, e, muito emocionado, chorou ao cantar a música. Aliás, sempre que ouço essa gravação, me arrepio até a medula (no link http://trovadores.uol.com.br/cds/serenata é possível ouvir a música, escolhendo a faixa "Beco sem saída").

Em 1994, o levei como patrono da Fampop, em Avaré. Foi homenageado, recebeu uma troféu das mãos de Zuza Homem de Mello, e no meio daquele alarido de um ginásio de esportes lotado de jovens, pegou o microfone e, "a capella", mandou um Carinhoso de fio a pavio, com seu vozeirão ainda respeitável. Silêncio absoluto. Poucas horas antes, o cantor Tim Maia dera um histórico vexame no mesmo palco, não conseguindo terminar o show de abertura do festival. A imagem que ficou foi do exemplo daquele velho senhor, cuja carreira de cantor tivera início no final dos anos 20, e que ali estava, do alto dos seus oitenta e poucos anos, ensinando aos mais jovens lições sobre a fragilidade da vida, sobre a onipotência do show business, sobre humildade, sobre música...

Estávamos ao seu lado no palco do último show, no Sesc Pompéia, no início de 1998. Era uma apresentação que contava também com a participação de Noite Ilustrada, Dóris Monteiro e Miltinho. Silvio se sentiu mal, saiu do palco, e nunca mais voltou. Subiu pro andar de cima poucos dias depois, depois de nos dar grandes lições de vida. E de música popular brasileira.


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